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Há Mil Anos que Não te Via



«O beijo que une as suas bocas é de uma sensibilidade suprema. A única coisa que existe é esse momento mágico. A terra para de girar. Toda a atividade do mundo para nesse instante porque duas almas estão a encontrar-se, depois de séculos de busca. Nada mais importa agora. Estão ali a viver esse momento que é eterno, e que não vai acabar nunca.»



«A sincronicidade espanta-os. Querem falar, explicar o que sentiram nestes dias, como é possível isto que está a acontecer. Falam ao mesmo tempo. É notável o entusiasmo com que vão ligando as coisas, falando dos seus passados solitários e carentes, a energia que emanam a cada história que contam: – Chamei-te tantas vezes, Pietro. Quando era pequenina e a minha mãe me punha de castigo, zangava-me contigo porque não me vinhas salvar… porque não vieste? – Sempre que o meu pai me batia, eu chorava e sonhava que havia de fugir para um lugar lindo… e tu estavas lá à minha espera…»



«A alma de Pietro chora. E fala diretamente com a alma de Inês: «Não, este karma não acaba aqui. Havemos de nos encontrar para limpar isto. Nem que seja daqui a milhares de anos. Eu prometo-te.»»



«E essa dor que o amor provoca é a que o ser humano precisa de vivenciar para libertar sofrimento de outras vidas – kármico, portanto – e conseguir a cura da sua alma. Por isso é um sofrimento abençoado.»



«Mas o que Inês não sabe é que quando chega a hora de o ser humano aceder às suas dores para as curar, chega mesmo. E nessa altura não há nada a fazer. Os homens podem escolher que o processo seja mais simples ou mais complicado, com maior ou menor sofrimento. Mas, pela lei do karma – ação e reação –, tudo o que se bloqueou deverá ser revisitado para ser limpo. E se o que se enviou para o universo foi o bloquear de uma dor, demore as vidas que demorar, essa dor deverá voltar para ser revivida, drenada e por fim purificada.»



«E assim o tempo vai passando, com a certeza de que tudo é perfeito e de que um homem só atrai o que precisa para aprender a avançar mais um bocadinho.»



«Tenta que os dias sejam todos iguais como eram antes, aquela sublime estabilidade. Em que não precisava de pensar em nada porque a vida andava sozinha. Mas, agora, parece que o coração acordou.»



«Aqui em cima as coisas são mais simples. Como somos energia e sabemos disso, coisa que os humanos lá em baixo não sabem – pensam mesmo que são matéria –, torna-se muito mais fácil lidar com tudo, pois tudo é energia. Aqui em cima sabemos que não é possível fugir de uma atração nem de uma repulsão. Enquanto os corpos se atraem ou se repelem é porque há ligação. E essa ligação deverá ser vivida se for boa e processada e resolvida se for má. O ideal é dois corpos poderem estar lado a lado, sem arestas, sem fissuras. Aqui em cima sabemos que, ao trabalhar qualquer uma destas ligações, estamos a evoluir. É simples. Mas os humanos lá em baixo não fazem isso.»



«Não demorou um segundo. Não demorou um único segundo. Só de ouvir o nome dele, aquela voz entrou dentro do seu ouvido fazendo estremecer o seu corpo. Transformou-se como que por magia numa seta, mas uma seta inteligente, daquelas que sabem perfeitamente o que têm de fazer. Passou por dentro da cabeça, foi ao hemisfério direito acordar todas as emoções, todas as sensações daqueles dias longínquos em Roma. Passaram à frente dos seus olhos as imagens mágicas do hotel, da Fontana di Trevi, dos beijos, do quarto, da voz, da entrega. Tudo outra vez, meu Deus. Depois, essa seta incontrolável foi diretamente para o coração abrir a ferida que já estava quase curada. Quase fechada, quase. E foi precisamente por esse espacinho, por esse «quase», que a seta entrou.»



«Este amor imenso que sente por Pietro é a melhor coisa que lhe aconteceu, mas é também, sem sombra de dúvida, a pior coisa que alguma vez lhe poderia ter acontecido! Viveu com ele os melhores momentos da sua vida, mas também, e paralelamente, os piores. E esta montanha-russa emocional quase a leva à loucura. A sua vidinha regrada pode não ter muita emoção, mas é muito mais estável e tranquila. A questão é que depois de uma pessoa saber que existe o paraíso, torna-se muito difícil viver no deserto.»



«Da mesma forma que os pintores têm um estilo, um padrão de pintura, também as pessoas têm padrões de comportamento. Quem sabe se esses padrões não vêm lá de trás, de vidas em que reagiram duma mesma maneira vezes e vezes sem fim? Por essa ordem de ideias, o que deveríamos fazer nesta vida seria mudar esses padrões de comportamento, para nos afastarmos das pessoas que fomos e começarmos a perscrutar quem podemos vir a ser. E é nesta altura que Pietro percebe que o destino é feito de alternativas fixas e variáveis, e que está nas nossas mãos aceitar o que não pode ser mudado, mas invariavelmente escolher mudar tudo o que não confere com o que somos e que pode ser alterado.»



«Pelos vistos não mudaste nada. Continuas a achar que podes mandar na vida, não é? Sempre foste assim, mas eu pensei que tinhas crescido, miúda.»



«Dói. Sim, dói, mas é uma dor completamente nova, que devolve um significado, que tem um fim à vista, que é diferente da dor antiga, tão vazia e estéril. A dor que sente com a sua drástica mudança de vida é uma dor convicta de quem está a construir um mundo novo, um eu novo, no qual essa mesma dor já não terá lugar. Não desta maneira.»



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