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A minha filha, há alguns anos, teve uma doença que nunca ninguém soube explicar.
Durante um mês desmaiava com frequência, não respirava a espaços e chegava a acordar quase sufocada. Andei com ela de hospital em hospital e esta foi uma fase muito dolorosa para mim.

Um dia, nos cuidados intensivos do Hospital da Cruz Vermelha, as máquinas pararam, começaram todas a apitar, um barulho infernal. A enfermeira dizia: "...ela não respira, ela já não respira!" A médica olhou para a enfermeira com aquele ar de não há nada a fazer... e, em silêncio, retiraram-me da sala.

Nesse instante, nesse milésimo de segundo, para mim, ela tinha morrido. E eu não podia fazer nada.

Eu, aquela que sempre podia tudo, que sempre resolvia tudo, nada mais podia fazer. Anos depois, ao estudar Astrologia Kármica, descobri que nessa altura o Plutão fazia uma conjunção ao meu Sol e uma quadratura a ele próprio, aspectos esses que normalmente nos devolvem a nossa maior impotência. Foi isso que senti naquele instante: impotência absoluta para salvar a minha princezinha. Eu sei que essa pequeníssima fração de tempo mudou radicalmente a minha vida.

Nesse instante em que não havia mais nada a fazer, olhei para o céu disse:
— Eu desisto.

Na realidade o que eu quis dizer foi:
— Eu entrego.

Contrariamente ao que sempre imaginei que faria numa altura dessas, eu não me revoltei; eu entreguei. Não podia fazer nada e sabia que não podia fazer nada.

A partir daí, a partir do momento em que entreguei, o Universo começou a tratar de mim, a conspirar a meu favor.

Como dizia o nosso querido Professor Agostinho da Silva:
"Não tenhas planos para a vida para não estragares os planos que a vida tem para ti."

E realmente era verdade. A vida tinha outros planos para mim, eu é que não deixava que esses planos se concretizassem. O céu devolveu-me a minha filha, que está ótima.

Nunca mais teve nada.




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